AUTOR

Carlos Botelho

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  • Carlos Botelho
Carlos Botelho nasceu em Lisboa a 18 de Setembro de 1899, cidade onde viveu e viria a falecer em 18 de Agosto de 1982. Enquadrando esta figura no seio familiar, começaríamos por falar de seu pai que era músico, pianista, organista e compositor, e foi na qualidade de professor que descobriu numa das suas alunas, bastante mais nova, a futura mãe de Carlos Botelho, que também ela se tornaria professora de piano – o pai tinha 53 anos e a mãe 26 quando ele nasceu. Filho único e sem primos, acabaria por viver uma infância solitária, que certamente o marcaria na expressão de um mundo interior. Desde cedo se interessou pelas ilustrações de revistas francesas herdadas dos avós, copiando-as por rabiscos feitos como passatempo.(1) Determinante no seu percurso académico foi a entrada no liceu Pedro Nunes, simultaneamente com a morte do pai, acabando por ser um segundo lar para Botelho, onde fez importantes amizades, como Bento Jesus Caraça e Dias Amado. Mais seriamente inicia-se no desenho, e graças à sua capacidade de expressão gráfica, nos jornais de turma e festas da escola, acaba por ver o seu mérito reconhecido junto de colegas, professores e inclusive o próprio Reitor que o convidou a realizar uma exposição na sala da Reitoria. Esta exposição viria a ser a sua primeira individual, experiência apenas repetida 14 anos mais tarde, aos 32 anos. Dadas as suas origens, em paralelo com o liceu estudou música e violino, quase profissionalizando-se como violinista. “Depois do liceu, ingressei na Escola de Belas Artes, onde só estive dois rápidos anos, por falta de adaptação”, com matrícula de 1919. Nesta época o ensino de Belas Artes apenas valorizava o mimetismo em detrimento da autonomia individual incompreendida, o que se traduziu para Botelho numa autêntica desilusão; nesta etapa, apenas admirou a competência pedagógica de Ernesto Condeixa. Definia-se deste modo a génese de um percurso brilhante de autodidacta. A partir dos anos 20 contribuiu para a regeneração das artes gráficas em Portugal, ao lado de outros colegas, dos quais Bernardo Marques e Fred Kradolfer. Deste grupo Botelho sobressai pelos prémios ganhos em concursos de cartaz, inserção da banda desenhada no ABCzinho, publicação de desenhos e caricaturas, afirmando-se como gráfico e humorista.(2) A partir de 1921 a vida de Botelho nunca mais seria a mesma. Empregando-se em 1921, numa casa bancária, viria no ano de 1922 a casar com a mulher da sua vida, Beatriz, já então professora primária. Os primeiros anos da sua vida a dois começaram na casa dos sogros, numa mentalidade mais aberta da que estava habituado com sua mãe, e conjuntura mais favorável. Com o apoio da nova família, optou por abandonar a estabilidade do banco para se lançar numa carreira, porventura incerta. Iniciando-se numa fábrica de cerâmica, em1926, dedicou-se à caricatura, ilustração, banda desenhada e cartaz, onde por várias vezes foi galardoado.(3) A sua vertente de humorista consubstancia-se no jornal “Sempre Fixe”, em 1928, onde semanalmente tem a autoria de uma página de sátira social intitulada “Ecos da Semana”, ainda que envolta pela censura, lugar que ocupa durante 22 anos consecutivos, transformando itens da história como Hitler ou Mussolini, em simples personagens populares de D. Encrenca ou o Sr. Parecemal, “pois rir é um bom remédio para tantos males”. Mas o humor não concretizou plenamente Botelho. “Para se ser artista era necessário passar por Paris” e por isso Botelho o fez em 1929 regressando como “um homem novo”. Esta breve estadia tornar-se-ia decisiva, para o retomar da motivação sobre a pintura, numa nova fase da sua vida. Iniciando-se com o retrato, entre 1930 e 1941 (auto-retrato de 1930), a obra da sua vida centrar-se-ia na cidade, especificamente Lisboa, nas suas inúmeras facetas, análogo ao vedutismo (pintura de vistas urbanas italianas do século XVIII). O seu primeiro ateliê data de 1930, inserido num sótão onde iria morar com a mulher e os filhos (7 e 3 anos) para a Costa do Castelo, em pleno centro de Lisboa, habitação cedida à professora primária, onde viria a estar até 1949.(4) Exposições Em 1931 ruma a Paris para participar na qualidade de decorador na “Exposição Internacional e Colonial de Vincennes”. Neste ano também expõe no “II Salão dos Independentes”, SNBA, Lisboa. 1932 Expõe no “I Salão de Inverno”, SNBA, Lisboa. Em 1935 trabalha sob um “stand” de Lyon. Aproveita a viagem, acaba por fazer a sua primeira estada em Itália, onde conheceu de perto a pintura a fresco. No mesmo ano “I Exposição de Arte Moderna” do SPN e na “I Exposição de Pintura e Escultura”, SNBA, ambas em Lisboa. 1937 Paris, acaba por ser um marco fulcral, integrando a equipa de decoradores do Pavilhão de Portugal na “Exposição Internacional de Artes e Técnica”. Influenciado com o que viu da retrospectiva de Van Gohg. As várias viagens que fez, cada vez com maior regularidade ao estrangeiro, foram seguramente a grande escola do autodidacta Botelho. 1938 recebe o “Prémio Souza Cardoso”, com o retrato do seu pai “Pianista Carlos Botelho”. (5) Integrado numa equipa de decoradores portugueses nas Exposições Internacionais nos E.U.A, em 1939. Neste mesmo período obtém o 1.º Prémio de Pintura na Exposição Internacional de Arte Contemporânea em S. Francisco A partir de 1940 Botelho passa a expor com maior frequência, não tendo sido alheio neste ano a conquista “Prémio Columbano” na “V Exposição de Arte Moderna” do SPN, Lisboa. No ano seguinte, é inaugurado o seu novo atelier no Buzano (Parede), assinalando o local com a pintura dos retratos da sua mulher e dois filhos. Já em 1942, para além de outras exposições, realça-se a exibição da recolha da aldeia de Monsanto: “Exposição Aldeia do Monsanto”, SPN, Lisboa. Num contexto salazarista, a “Exposição Geral de Artes Plásticas”, na SNBA, Lisboa, em 1946 denota-se com um movimento de contestação política. A sua primeira exposição individual além fronteiras acontece em 1947, em Paris, na Galeria Lucy Krohg. Já em1950 marca presença na “XXV Bienal de Veneza” tendo oportunidade de fazer alguns estudos, desenhos e pinturas, assim como de pintar esta mesma cidade italiana. Neste mesmo ano também expôs na Suíça, assim como em Lisboa por ocasião dos “Vintes Anos de Pintura de Carlos Botelho”, no SNI. Estrangeiro novamente, agora em 1951, na “I Bienal de São Paulo”, Brasil, onde uma dos seus quadros arrecada o prémio de aquisição, posteriormente permanecendo no Museu de Arte Moderna de São Paulo. No ano subsequente, integra a mostra “Vinte Pintores Portugueses Contemporâneos” na Galeria de Março, Lisboa. No próprio ano, um pequeno canto da oficina de carpintaria do SNI, no Palácio Foz, é ajustado para seu atelier também. Com nova Menção Honrosa, agora já no ano de 1955 na “III Bienal de São Paulo”, opta no decorrer do período por abandonar a residência do Buzano para se vir instalar no Areeiro (Lisboa). Símbolo da sua importância, em 1957 é encarregue da decoração do percurso da Rainha de Inglaterra na sua passagem, por Lisboa. (6) É galardoado com a prata em 1958, na “Exposição Internacional de Bruxelas”. Já no ano de 1959 a Câmara Municipal de Lisboa acolhe a sua grande exposição retrospectiva, no Palácio Galveias. Não indiferente ao percurso de Botelho, em 1961 é-lhe atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian o Primeiro Prémio de Pintura na “II Exposição de Artes Plásticas”, Lisboa. Em 1963 foi convidado pelo próprio governo dos E.U.A. a visitar aquele país. A ocorrer no ano de 1965 surgem as exposições individuais, uma em Nova Iorque, na Galeria “Dois Mundo” e outra em Sala Especial na “VIII Bienal de São Paulo”. Por motivo dos seus 50 anos de pintura, regista-se no calendário 1968, comemoradas sob a forma de exposições individuais na “Galeria Buchholz”, organizada por Rui Mário Gonçalves, e de forma emblemática não poderia deixar passar a Reitoria do Liceu Pedro Nunes, para assim recordar precisamente o local onde ocorrera a sua primeira exposição. Em 1969 opta por reformar-se das suas funções nos serviços técnicos do SNI e abandonar o atelier no Palácio da Foz, ficando apenas a trabalhar no Areeiro e Buzano. Tendo sido referida a sua primeira exposição, faz sentido escrever que a sua última teve lugar em Dezembro de 1981, na “Galeria 111”, em Lisboa, a convite de Manuel Brito. De forma sucinta e propositadamente descritiva, Carlos Botelho foi reconhecido inúmeras vezes durante o seu percurso: Cavaleiro da Ordem de Santiago (1939), Oficial da Ordem Militar de Cristo (1941), Cavaleiro da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1941), Cavaleiro (1941) e ainda, desta ordem, Comendador (1968) e Grande Oficial (1980), Correspondente Cultural da Academia Brasileira de Belas Artes (1965), Vogal da Academia Nacional de Belas Artes (1975), Sócio Honorário da Sociedade Nacional de Belas Artes (1977), e em 1980, foi-lhe atribuída a “Medalha de Ouro” da Cidade de Lisboa. Assim se constrói um percurso de mais de 50 anos: “é essa carreira que agora se celebra”.
Obras de Carlos Botelho