AUTOR

Bernardo Marques

  • Nome Completo
  • Bernardo Marques
Natural de Silves, Algarve, Bernardo Marques nasce a 21 de Novembro de 1898, no seio de uma família abastada. Depois de cursar o liceu em Faro, muda-se, a 1918, para Lisboa onde começa os estudos na Faculdade de Letras. Lisboa, depois do Futurismo, encontrava-se intelectualmente enfraquecida, contudo, oferecia lazer, teatro e cinema. Marques, influenciado por esta Lisboa cosmopolita, opta por uma carreira artística de carácter vivencial, nos cafés do Chiado, e abandona os estudos ao fim de três anos. Estando-lhe vedada a pintura, por alergia aos materiais, o seu trabalho desenvolver-se-á na área do desenho. Estreia-se a 1920 na III Exposição de Arte do Grupo dos Humoristas Portugueses e colabora, desde então, até 1924, com publicações periódicas emblemáticas. Inicia-se através do desenho humorista nas revistas, ABC, Ilustração Portuguesa, ABC a RIR e n’O Século (Página de Domingo) e participa simbolicamente n’A Batalha, na Contemporânea, na Revista Portuguesa e na Europa. Nos anos de 1925 a 1929 participa regularmente n’O Diário de Notícias, com a crónica satírica Os Domingos de Lisboa e nos anos que se seguem, até 1934, trabalha ainda para a Ilustração, a Sempre Fixe, a Civilização, a Imagem (1ª e 2ª série), o Notícias Ilustrando, o Kino, a Girassol, e na Presença. Os seus desenhos são “caricaturas” representativas das poses, tiques, qualidades e defeitos físicos ou sociais da população citadina Portuguesa, com um olhar particularmente crítico e irónico sob o quotidiano dez Lisboa, mundano e de vivências frívolas. * * * A par da sua contribuição para revistas, Bernardo produz inúmeras outras publicações como, folhetos, catálogos, programas, convites e cartões de boas festas. Executou ainda numerosas capas devendo salientar-se as feitas para as casas editoriais Inquérito, Estúdios Cor, Guimarães & Comp. e Livros do Brasil. Dentro da área da publicidade, que, profissionalmente, não era a que lhe agradava mais, Marques, respondia a encomendas de revistas, ora específicas e desinteressantes, ora com espaço para a criatividade e bom gosto. Destacam-se os trabalhos para a Civilização, Notícias Ilustrando e, mais tarde, as publicidades inseridas na revista Panorama. * * * Além do seu talento para o desenho, ilustração e publicidade, Bernardo Marques foi também decorador, cenógrafo e figurinista. Em 1923 realiza um friso decorativo para a sala do vizinho e amigo António Ferro (do qual ilustrou inúmeras obras literárias), em 1925 é convidado para a remodelação de A Brasileira do Chiado, sendo esta a sua primeira grande encomenda modernista e a 1927, expõe no II Salão de Outono. A sua estadia em Berlim (1929) fá-lo aperceber-se da estagnação da vida artística Portuguesa, em oposição à obra do expressionista George Grosz, cujo traço se imprimirá no seu, inspirando-lhe a criação de peças satíricas que expõe, em 1930, no I Salão dos Independentes. O seu interesse pelo meio artístico Europeu leva-o também a Paris, viagem da qual resulta uma grande afinidade com a cidade onde viria a passar várias temporadas. Dividido entre Lisboa e Paris, Marques concilia a realização de vários trabalhos; destacam-se as decorações do Pavilhão Português na Exposição Colonial Internacional de Vicennes (1931), a criação dos trabalhos decorativos para o Cortejo Fluvial das Festas de Lisboa (1934) e a participação na decoração do Pavilhão Português da Exposição Internacional de Paris (1938). Seguem-se, entre outras, as participações nas Exposições de Nova Iorque e San Francisco (1939); a colaboração na Exposição do Mundo Português (1940) e o regresso às colaborações com periódicos, participando na Revista de Portugal, na Variante e na Atlântico em 1939, 1942-1943 e 1942-1945, respectivamente. A década de 40 sublinha um percurso profissional de sucesso (condecorado a 1941 com a Ordem de Sant’Iago), do qual se destacam a direcção artística das revistas Panorama (1941-1949), Litoral (1944-1945) e Colóquio (1959-1962); a chefia das I, II e III Feira das Industrias Portuguesas, em 1949, 1950 e 1951, respectivamente; a decoração dos paquetes Vera Cruz (1949) e Santa Maria (1951) bem como a contribuição de um painel para a Exposição do IV Centenário da Fundação da Cidade de São Paulo (1954) Brasil. A 1948 retoma o exercício do desenho como actividade autónoma, expondo e sendo várias vezes premiado: a 1951 representa Portugal na Bienal Internacional Bianco e Nero de Lugano; a 1955 recebe o prémio de Desenho na Exposição Iconográfica das Pescas; a 1957 são lhe atribuídos os prémios de Desenho e Aguarela na I Exposição de Artes Plásticas e a 1958 recebe o Prémio Especial de Pintura na III Exposição de Artes Plásticas. “A obra de Marques, para além das suas facetas mais específicas (capista, ilustrador, decorador), evoluiu cronologicamente num percurso que passou pela ilusão e descoberta da cidade mundana (anos 20), pela revolta e crítica social (anos 30), pela caracterização folclórica do País (anos 40) e finalmente pelo desencanto e retiro intimista” que resulta no registo paisagístico dos anos 50. Dos seus últimos trabalhos destacam-se a ilustração d’O Livro de Cesário Verde, a 1956, e a colaboração de 1958 no filme Rapsódia Portuguesa. Bernardo Marques morre, no dia 28 de Setembro de 1962, em Lisboa. Exposição marcante A sua estadia em Berlim, no ano de 1929, veio a mostrar-se de grande importância na sua evolução artística. Encontra uma comunidade artística com preocupações sociais, “caricaturando o horror de uma sociedade burguesa emergida com a guerra, em composições mordazes e depressivas”. Ao contactar com esta realidade, Bernardo Marques apercebe-se da estagnação da vida artística Portuguesa, e, como consequência, os seus desenhos a aguarela passam a reflectir um certo desencanto e amargura crítica associados a um traço mais violento e expressionista. A influência mais notória nos seus desenhos é a do pintor expressionista-satírico George Grosz, cujo traço se imprimirá no de Marques, inspirando-lhe a criação de peças satíricas, mais especificamente em retratos e fisionomias, como as aguarelas datadas de 1929. * * * Bernardo Marques molda a sua aprendizagem ao contexto lisboeta, assumindo a atracção pelo grotesco, adaptado aos brandos e menos dramáticos costumes portugueses. Esta aprendizagem permitiu-lhe não só uma inovação plástica, ou um ponto de viragem, mas como lhe endureceu o sentido crítico através da expressão grotesca ao longo dos anos 30. Por exemplo, dos estereótipos de elegância que Bernardo cria no início da década de 20, o contraste agora é evidente: as mulheres surgem quase maltratadas, com representações menos idealizadas e estilizadas, algumas pouco atractivas, repelentes até. * * * A maioria das aguarelas datadas de 1929 teriam sido feito para si mesmo, no entanto, Marques considera-as importantes e esclarecedoras desta fase pictórica, e decide expor uma pequena selecção em 1930, e 1931, nos I e II Salão dos Independentes.
Obras de Bernardo Marques