AUTOR

Ofélia Marques

  • Nome Completo
  • Ofélia Marques
Ofelia Goncalves Pereira da Cruz nasceu em Lisboa, a 14 de Novembro de 1902. Uma das primeiras mulheres, em Portugal, a frequentar a Universidade, seguiu a carreira artistica, integrando-se na segunda geração do modernismo portugues. Pintora, ilustradora e caricaturista, no seu trabalho pode destingir-se varias faces. Por um lado, o seu trabalho esta intrinsecamente ligado ao universo infantil; representava a docura, harmonia e candura de criancas inocentes, de olhares melancolicos com um tracado sensível e gracioso, de pendor lirico e decorativo. Os retratos de meninas bem comportadas valeu-lhe a alcunha de “pintora de crianças”. Nesta vertente podem ainda incluir-se alguns auto-retratos, onde se da a conhecer como uma criança de longos cabelos com caracois infantis enfeitados com uma fita azul. O ar inocente e a candura da artista permanecem intactos mesmo quando se retrata como mulher adulta, numa maturidade dificilmente assumida. Ofelia e ainda responsável por um dos trabalhos mais peculiares e ineditos dos anos 30: concebeu um original album de retratos dos seus amigos, caricaturando-os e imaginando-os como crianças, tornando-os personagens de um teatro cultural e social do seu tempo; deixando em algumas das suas caricaturas elementos característicos da profissão que desempenham. Testemunho do que foi a vivência cultural de uma geração, nesse núcleo de caricaturas e uma expressiva galeria de época, focando quase todos os nomes conhecidos das artes, literatura e ciência — em elos que cruzavam nao apenas áreas profissionais mas ate opções políticas. Com efeito, do grupo de amigos de Ofelia faziam parte, entre muitos outros, o matemático Bento de Jesus Caraca(1901 – 1948) e o jornalista, escritor e politico Antonio Ferro (1895 – 1956). Alguns destes desenhos permanecem inacabados, apenas a grafite, mas mantendo a perfeita captação das características da personalidade de cada um. Em oposicao a este lado doce e ingenuo da representação de criancas, a exposição da Galeria de Colares em 1988 (“Ofelia Marques – Album de uma menina morta”) desvenda uma Ofelia mais assertiva e polémica; expondo uma colecção desconhecida com desenhos de jovens semi-nuas de olhar perdido no vazio ou admirando-se numa ingenuidade perversa, nunca fixando o observador. Alguns destes desenhos estao inacabados por vergonha e pudor, deixando transparecer a renitência da artista em assumir a sua inconfessável atracção pelo universo feminino. Em termos formais e construtivos o seu desenho não e muito apurado. Contudo, os materiais são trabalhados com elegância e profissionalismo. Por exemplo, a forma como manuseia lapis de cera e pastel demonstra habilidade na construção e conhecimento das técnicas ou ainda os difíceis realces a guache e tinta da china sao bastante bem conseguidos, espalhando pontos de luz e delimitando pormenores. Ofelia soube tambem dotar os seus trabalhos de uma surpreendente capacidade de analise de que e claro exemplo o vasto núcleo de caricaturas dos seus amigos. Em termos formais e construtivos o seu desenho nao e muito apurado. Contudo, os materiais sao trabalhados com elegância e profissionalismo. Nesses trabalhos, nos quais o desenho cruza o traço mais conhecido da autora, forjado nos desejos do mercado da ilustração, com um outro mais liberto, nem sempre benevolo e varias vezes mordaz, percebe-se uma desenhadora com maior versatilidade do que a normal mente reconhecida, capaz ainda de uma modulação do traco de acordo com o caricaturado, chegando a citar o da personagem quando se trata de um artista plástico. Além do desenho de caricatura e pintura, a mulher de Bernardo Marques dedicou-se, nos anos 20, a ilustração de livros infantis, em parte influenciada pelo desgosto de nao ter conseguido ser mae. As suas ilustrações, com representações ingenuas de crianças e do seu mundo, de brincadeiras, instantes de intimidade e poses contemplativas, foram publicadas em revistas como “Atlântico”, “Panorama”, “Ver e Crer”, “Revista de Portugal" ultima, em 1928, destacou-se a rubrica O Reino dos Miudos, onde ilustrou estorias contadas por Rosa Silvestre (pseudónimo de Maria Lamas). Publicou tambem algumas Bandas Desenhadas no ABCzinho, em 1926, e trabalhou igualmente com Fernanda de Castro, Natercia Freire e Jose Gomes Ferreira, para quem ilustrou, em 1925, a primeira versão de “As aventuras de João Sem Medo”, que foram publicadas em “O senhor doutor”, a convite de Antonio Lopes Ribeiro. Contudo, as sistemáticas publicações do seu trabalhos parecem nunca ter estado no seu planos, apesar das exposições colectivas onde participou e do Prémio Souza Cardoso que ganhou, em 1940, com um retrato de Luisa d’Eca Leal. A sua obra pode considerar-se incompleta, devido ao seu sucidio em 1952, porem coerente, sem sobressaltos plásticos. Contudo, as marcas das suas inquietações pessoais estao patentes no silencio dos seus desenhos, no olhar doce e silenciosamente atento das meninas e nas poses intimistas das mulheres; sos, como um retrato tirado em estudio fotografico, ou em grupo, as personagens permanecem como seres isolados, incomunicantes por opçao e nao por impossiblidade.
Obras de Ofélia Marques