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António Soares

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  • António Soares
António Soares nasceu em Lisboa em 1894 e aí morreu em 1978. Viveu numa época em que o naturalismo era a corrente artística aceite em Portugal, enquanto que as teorias estéticas modernistas se tentavam impor, através de Amadeo Sousa Cardoso, Santa Rita, Eduardo Viana, Almada Negreiros, entre outros. António Soares acompanhou também a mudança que se fazia acontecer na literatura, sendo contemporâneo de Sá Carneiro e Fernando Pessoa. Não tendo qualquer tipo de formação académica, foi como ilustrador que se iniciou numa carreira artística. Dedicando-se às artes gráficas, trabalhou com frequência para revistas como a Ilustração, Magazine Bertrand e ABC. Criou desenhos e pinturas para capas de livros, cartazes e anúncios, com um gosto moderno que imprimia nas suas obras, rivalizando com outros artistas que tiveram um percurso idêntico no seu tempo. Junto com Almada Negreiros, Jorge Barradas, Cristiano Cruz, Canto da Maia, entre outros, aderiu à corrente modernista, que teria o seu reflexo na importância dada à caricatura e na escolha de temas mundanos, fazendo um ponto de viragem nos conceitos políticos e sociais que se faziam sentir em Portugal. Em 1925, efectuou uma viagem a Paris, onde visitou a Grande Exposição Internacional das Artes decorativas. O estilo de Art Déco sensibilizou-o, e nele encontrou afinidades com a própria concepção estilizada, geometrizada por vezes, visível em trabalhos realizados para revistas como a ABC, a Ilustração Portugueza, Civilização ou Contemporânea, e sobretudo pelas sua prestações como decorador/designer, ao longo das décadas de 20 e 30. A sua vocação de decorador levou-o a desempenhar um papel de certo relevo na renovação do gosto nas artes decorativas, nessas décadas. A ele se deve a tentativa de criação de um atelier de design gráfico, em parceria com Jorge Barradas, em 1915 - que fracassou pela escassez de encomendas por parte dos clientes. Em 1927, aprofundou a sua actividade como retratista, devido à chegada de Fred Kradolfer, e com ele, do design tridimensional a Portugal. Trabalhou ainda como arquitecto, decorador e cenógrafo, para cinema e teatro, artes efémeras que ainda assim lhe proporcionaram um convívio enriquecedor e lhe serviram para uma experimentação estética bastante ousada. Fez também decorações arquitectónicas e murais, destacando-se as pinturas que fez para o café A Brasileira, do Chiado, e para o Bristol Club. Outras experiências deste tempo incluem colaborações na criação de cenários para teatro e a sua participação em concursos de design de interiores e decoração, como o Salão de Outono, promovido em 1928 pela revista feminina Voga. A concepção dos expositores para a loja de confecções Tátá, no âmbito deste concurso, revela um talento versátil na adaptação de uma fórmula decorativa de linhas geométricas ao espaço reduzido de um pequeno stand, numa interpretação adequada à moda internacional de L'Esprit Noveau, ilustrada por Le Corbusier no pavilhão que este projectou para a Exposição das Artes Decorativas de Paris. Na pintura, demonstra interesse pela figura, e o gosto pela composição remete a sua simpatia pela obra de Columbano; a sensibilidade e a emoção implícitas nas suas obras de figura feminina mostram um pintor modernista, que o foi até aos anos 30, sendo obras que mostram alguma influência de Van Gogh e dos Expressionistas Alemães. Natacha e Retrato Da Irmã Do Artista são exemplos significativos da qualidade da pintura de António Soares, que ainda em vida viu reconhecidos os louros do seu trabalho, expondo e vendendo muitas obras,e ganhando vários prémios (em 1935 e 1948 recbeu o Prémio Columbano, do SNI; em 1937, um "Grand Prix" na Exposição Internacional de Paris; em 1939, uma Medalha de honra em Nova Iorque; e em 1962, o Prémio do Diário de Notícias). A sua pintura é frequentemente considerada lírica. A primeira vez que Soares se apresentou em público foi em 1913 em Lisboa, na II Exposição dos Humoristas. Reapareceria novamente em 1915, no Salão dos Humoristas, em 1916, na 1ª Exposição de Humoristas e Modernistas, e em 1917, na Exposição de Arte e Guerra, todas no Porto. Ao longo da sua carreira realizou também inúmeras exposições individuais. Concorreu às exposições do SNI, onde participou em 1948, 49 e 66. Na sua carreira internacional, conta com participações nas exposições de Vincennes, e 1929, Internacional de Paris, em 1937, Nova Iorque, em 1939, I Bienal de S. Paulo, em 1951, Sevilha, 1952, arte Portuguesa no Rio de Janeiro, 1965, Art Portugais: Peinture et Sculpture du Naturalisme à nos Jours, Bruxelas, 1967. Em 1930, António Soares recebeu o convite para ocupar o cargo de director artístico da Exposição da Luz e da Electricidade Aplicada ao Lar. Realizada na Sociedade Nacional de Belas-Artes, a exposição pretendia mostrar as novidades da técnica moderna e as suas potencialidades, no âmbito das aplicações domésticas e industriais. Dentro do espírito Art Déco internacionalmente consagrado, António Soares concebeu um conjunto que pretende simples e requintado, consentâneo com a orientação “tecnicista” do tempo, numa linguagem que aplica, no mesmo ano, à reforma dos interiores do bar do Teatro Nacional D. Maria II. Apesar do sucesso que conseguiu e da importância da sua obra, a sua carreira como um dos principais pintores modernistas não teve a duração da sua longa vida, pois mais tarde voltou a temas e modelos com raízes numa estética naturalista,de mais fácil entendimento. António Soares está representado em várias instituições públicas, como os Museus do Chiado e do Caramulo, na Assembleia da República, na Colecção de Pintura da IBM, em Nova Iorque, e em inúmeras colecções privadas. O MSNR possui duas obras suas: uma aguarela, que não é mais do que um apontamento de um rosto feminino; e uma pintura a óleo - Lisboa de Noite - em que o artista( em 1956) insiste em tratar temas mundanos. Vencedor de um Grande Prémio, na Exposição Internacional de Paris, em 1937, António Soares terminou a sua carreira num relativo esquecimento, até à data da sua morte em 1978, das manifestações mais importantes da arte portuguesa na segunda metade do século XX. A colecção do CAMJAP presta-lhe um tributo expressivo, ao conservar no seu acervo numerosos desenhos e ilustrações originais, criados na época mais produtiva da sua carreira – os anos 20. Deste conjunto, destaca-se Leviana, desenho a guache para a capa da novela homónima de António Ferro, publicada em 1921. Das pinturas que António Soares realizou, podemos destacar o Retrato de Natacha (1928), quadro elegante no gesto encenado da figura sentada, mais interessante pelo ensaio de dissolução das formas num espaço pouco profundo, prestes a diluir-se nas pinceladas. A sua pintura actualiza e prolonga uma gramática oitocentista, na preferência pela convenção do retrato, sobretudo feminino, acrescentando-lhe valores mundanos e modernos na abordagem de contextos urbanos e cosmopolitas.
Obras de António Soares